11 de setembro de 1973: o golpe que matou a democracia

Por Rodrigo Barrenechea* e Rodrigo Noel de Souza**

Nestas manifestações de junho passado, talvez as pessoas não saibam, mas quando gritavam “O povo unido jamais será vencido”, repetiam um grito de mais de 40 anos…

allende

O Chile era, entre nossos vizinhos sul-americanos, uma exceção em termos políticos. Ao contrário dos outros países de nosso continente, que viviam constantes golpes de Estado e mudanças políticas, lá viveu-se, com pequenos intervalos, uma democracia contínua, com cada governo eleito sucedendo a seu antecessor. Isso até 1973.

Em fins de 1970, após várias tentativas anteriores, foi eleito presidente Salvador Allende Gossens, médico sanitarista, à frente da Unidade Popular (UP) uma coalizão de esquerda que incluía os partidos comunista e socialista chilenos, além dos radicais – de centro-esquerda – e outros grupos menores. A UP ganhou da Democracia Cristã (DC), e do Partido Nacional, que se alternavam no poder desde os anos 1940. Allende foi eleito com um programa ousado: tratava-se, nada mais nada menos, de realizar uma transição pacífica ao socialismo e construir um Estado dos Trabalhadores.

Viviam-se os anos da Guerra Fria, da permanente oposição entre Estados Unidos e União Soviética. A lembrança da Revolução Cubana de 1959, de Fidel Castro e Che Guevara, era algo ainda muito presente. O que a UP propunha era, através da estatização da maior parte da economia, chegar a uma situação onde as elites econômicas já não mais controlassem as riquezas do país e, com isso, o poder passasse aos trabalhadores organizados.

Uma das primeiras medidas foi a nacionalização do Cobre, a principal riqueza nacional e fonte de dólares, necessários para a importação de equipamentos e alimentos, já que o país não era autossuficiente em nenhuma das duas. Esta se deu sem indenização, pois as multinacionais que controlavam o minério – na maioria, norte-americanas – já haviam retirado muito mais em lucro do que as minas valiam.

A classe trabalhadora chilena, por sua parte, sabia que não bastava chegar ao poder executivo. Nem toda a esquerda fazia parte do governo, especialmente o MIR (Movimento de Esquerda Revolucionário). Assim, a tarefa de criar “poder popular” tornou-se fundamental, especialmente para fazer frente aos ataques da burguesia chilena e dos Estados Unidos, que impuseram um bloqueio comercial. Formam-se as chamadas Juntas de Abastecimento e Preços (JAP), que passaram a controlar o abastecimento dos produtos de primeira necessidade e a combater o mercado negro que se formou. Surgem também os “Cordones Industriales”, que agrupavam as indústrias de uma dada região e garantiam o abastecimento do mercado interno. Aos poucos, os operários estabeleciam uma alternativa de poder ao Estado burguês.

A direita se organiza

Como o governo não tinha uma maioria estável no Congresso Nacional, nem a oposição, surgiu um impasse. Nem o Poder Executivo conseguia aprofundar seu programa de nacionalizações da economia – a chamada “área de propriedade social” – nem a direita reunia os votos necessários para destituir Allende. Em 1972, a UP vence a eleição para renovar a Câmara dos Deputados e o Senado, mas ainda sem maioria absoluta. Aumentou a pressão para criar o caos econômico, especialmente com as greves dos caminhoneiros e dos mineiros de El Teniente, uma das principais minas e a mais próxima de Santiago, a capital do país. Começa a ser pensada uma outra solução para o impasse, uma muito mais sinistra…

As Forças Armadas chilenas tradicionalmente apoiavam os governos eleitos, a chamada “doutrina constitucionalista”. Porém, desde os anos 1960 isso muda: aumenta o intercâmbio entre os exércitos chileno e norte-americano – por meio de cursos na Escola das Américas, no Panamá, onde os diversos golpes militares na América Latina foram planejados. Da mesma forma, diversos oficiais das Forças Armadas são chamados ao Brasil, após 1964, para assistir a cursos de formação, dados por instrutores da agência de espionagem norte-americana, a CIA.

Constado que não seria possível destituir Allende pelo caminho legal, começa a organizar-se uma tomada violenta do poder. A classe trabalhadora chilena percebeu o perigo do golpe e mobilizava-se diariamente, mas a responsabilidade da UP deve ficar clara, por não preparar a sua militância e recusar-se a armar o povo. Allende faz uma reforma ministerial e incorpora os militares ao gabinete; nomeando para Comandante-em-chefe do exército um general reconhecido como constitucionalista, Augusto Pinochet. Mal sabia ele do que ocorreria a seguir…

O golpe em gestação

Em setembro de 1973, acossado pela oposição e massacrado pela imprensa, em geral controlada pelos ricos, Allende concebeu um plesbicito no qual o povo decidiria se ele deixaria o poder, após 3 anos da eleição. Em 11 de setembro de 1973, seria anunciado do referendo; no entanto, este nunca veio a público. De manhã, as rádios de Santiago e Valparaíso – o principal porto do país – noticiavam chuva quando não havia uma só nuvem no céu. Era a senha para o golpe. Os navios chilenos, que estavam em manobras com a marinha norte-americana, apontaram seus canhões para o porto. Nos quartéis ao longo do país, os soldados que permaneciam fiéis ao governo eram presos e vários fuzilados. Antes do meio-dia, os comandantes das Forças Armadas faziam um ultimato ao “companheiro-presidente”, para que Allende deixasse o poder. Ele e sua família seriam mandados ao exílio. Allende recusou-se. O palácio de La Moneda foi então bombardeado. Allende resistiu o quanto pôde, até ser morto. Com ele, morria a democracia chilena, isso até 1989. Assumiu o poder uma junta militar. No entanto, o gal. Pinochet agarrou-se ao poder até 1989. Legou ao país uma Constituição, imposta em 1980, que deu ao país um aspecto muito mais autoritário, e que persiste até hoje, 23 anos depois. O Chile, de país mais democrático do continente, torna-se uma vergonha mundial, sendo repudiado por governos ao redor do planeta.

Pouco antes de sua morte, Allende dirigiu-se por rede de rádiosa, antes que fossem silenciadas pelos militares golpistas. “Têm a força, poderão esmagar; mas é impossível deter os processos sociais, seja com o crime ou com a força. A História é nossa, é feita pelos povos. (…) Trabalhadores de minha pátria: tenho fé no Chile e em seu destino. Outros chilenos superarão este momento negro e amargo em que a traição pretende se impor; continuem sabendo que muito mais cedo que mais tarde novamente se abrirão as grandes avenidas por onde passará o homem digno, para construir uma sociedade melhor. Viva o Chile! Viva o povo!”.

* Professor de História da rede Estadual, chileno, foi obrigado a abandonar seu país com sua família por causa do golpe, tendo parentes exilados e torturados pelo regime militar.

** Editor da ANOTA – Agência de Notícias Alternativas

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