Brasil x Haiti: do jogo da paz ao jogo da pacificação – Parte 4

Essa é a quarta reportagem de uma série de cinco sobre a relação entre Brasil e Haiti desde a implantação da Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH), em 2004.

Por Miriane Peregrino

Homens e mulheres aguardam atendimento nas escadarias do Serviço de Consulado da Embaixada do Brasil em Pétionville. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Homens e mulheres aguardam atendimento nas escadarias do Serviço de Consulado da Embaixada do Brasil em Pétionville. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Preconceito contra haitianos gera onda de violência no Brasil

No inicio do mês de agosto, seis haitianos foram baleados por balas de chumbinho nas escadarias da Paróquia Nossa Senhora da Paz, em São Paulo. Ali funciona a Casa do Migrante, local de acolhimento de imigrantes ligado a Missão Paz. Miguel Ahumada, responsável pela rádio da Casa do Migrante, explica que entre dois a três meses os imigrantes cadastrados tem residência na casa, refeição e aulas de português, além de auxílio na procura de emprego. Ahumada lembra que, além dos imigrantes haitianos, a casa tem imigrantes senegaleses, angolanos, peruanos, bolivianos e paraguaios. O próprio Ahumada é chileno, vive no Brasil há mais de 20 anos e hoje é um dos colaboradores da Casa do Migrante.

No que diz respeito à imigração haitiana para o Brasil, Ahumada afirma que é fenômeno recente e tem crescido em São Paulo desde o ano passado quando em apenas três dias chegaram cerca de 600 haitianos na cidade: “E foi uma coisa muito impressionante porque a igreja não estava preparada para receber os irmãos haitianos que estavam chegando. Os padres tiveram que ligar para o Ministério da Justiça.” – lembra Miguel Ahumada – “O labor da igreja é cuidar dessas pessoas, mas o labor do estado é fazer sua política migratória”.

Ruínas da Catedral de Notre Dame, atingida pelo terremoto de 2010. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Ruínas da Catedral de Notre Dame, atingida pelo terremoto de 2010. Dentre as acusações contra a FIFA feitas em junho de 2015, consta a de que o vice-presidente da federação, o caribenho Jack Warner, teria desviado US$750 mil de um fundo em apoio as vítimas do terremoto. Certamente, isso é só a ponta de um iceberg. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Apesar dos recentes casos de violência e racismo sofridos por haitianos no Brasil e das denúncias sobre as dificuldades que encontram na hora de procurar emprego aqui, muitos haitianos encaram a fila no Serviço de Consulado da Embaixada do Brasil no Haiti para tirar o visto humanitário.

“Aqui as coisas são muito difíceis. Tenho duas crianças para mandar pra escola. Eu acho que se eu for pro Brasil consigo trabalho.” – afirmou Robson, 29 anos, enquanto aguardava sua vez na fila. A fala de Robson representa a de muitos outros pais, pois no Haiti não existe escola pública e a maior parte da população é analfabeta. As famílias haitianas com alguma condição financeira pagam escola para seus filhos ou se esforçam para garantir os estudos de pelo menos um deles.

Já o haitiano Emerson contou, em um bom português, que estava na fila do consulado para acompanhar uma amiga e já esteve no Brasil em 2012: “Trabalhei na construção civil e depois fiz um curso de logística lá. Tive saudade da minha família, do meu país e, por isso, tive que voltar. Eu não tenho vontade de voltar pro Brasil. É preciso muito dinheiro para ir pra lá. O dólar tá caro. Mas os olhos dos haitianos estão no Brasil”.

Na cidade turística de Jacmel, litoral sul do Haiti, também encontramos Fritz, 34 anos, fazendo planos para vir ao Brasil. O objetivo dele é aprimorar seus conhecimentos na área de agricultura e reaplicá-los no Haiti quando voltar. Ele e sua esposa, Beatrice, estão terminando a construção de sua casa de alvenaria e são uma das famílias que vivem em habitações provisórias desde o terremoto de 2010.

Fritz, no quintal de sua casa, concedeu entrevista em crioulo haitiano, traduzida pelo estudante brasileiro Felipe Evangelista. Jacmel, Haiti. Foto: Miriane Peregrino.

Fritz, no quintal de sua casa, concedeu entrevista em crioulo haitiano, traduzida pelo estudante brasileiro Felipe Evangelista. Jacmel, Haiti. Foto: Miriane Peregrino.

Recentemente, o Ministro da Justiça, José Eduardo Cardozo, anunciou que o governo brasileiro aumentará o número de concessão de vistos para haitianos como uma medida contra a entrada ilegal de imigrantes no Brasil. No entanto, uma vez aqui, poucos são os apoios governamentais a esses imigrantes.

O estado de São Paulo concentra um dos maiores índices de imigrantes haitianos, não por acaso, também é um dos estados brasileiros que mais envia soldados para o Haiti desde que o Brasil passou a chefiar a Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH). Esses aspectos, somados as dificuldades geradas após o terremoto de 12 de janeiro e a epidemia de cólera que assolaram o Haiti em 2010, são fundamentais para entendermos o atual fluxo migratório de haitianos para o Brasil e que ele também se dá no sentido contrário:

“O Haiti é bom para o estrangeiro. São os estrangeiros que estão ganhando dinheiro lá. Você sabe quanto ganha um soldado do Exército lá e quanto ganha um soldado aqui?” – queixa-se Wesley, 29 anos, um dos haitianos que vivem na comunidade de Asa Branca, zona oeste da cidade do Rio de Janeiro. Apesar de ser formado em jornalismo e falar pelo menos quatro idiomas (inglês, francês, português e crioulo haitiano), Wesley trabalha aqui na área de construção civil em obras promovidas em função dos megaeventos que foram e ainda serão realizados na cidade.

*Essa matéria tem versão impressa no jornal Vozes das Comunidades, setembro 2015

**Essa matéria também está na página do jornal O Cidadão Online

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