Brasil x Haiti: do jogo da paz ao jogo da pacificação – Parte 5

Essa é a última reportagem de uma série de cinco sobre a relação entre Brasil e Haiti desde a implantação da Missão das Nações Unidas de Estabilização do Haiti (MINUSTAH), em 2004.

Por Miriane Peregrino

Bel Air, gueto de origem de Yves. Ao fundo, a estátua de Madame Colo, marca de um bairro inicialmente povoado pela burguesia haitiana. Foto: Miriane Peregrino

Bel Air, gueto de origem de Yves. Ao fundo, a estátua de Madame Colo, marca de um bairro inicialmente povoado pela burguesia haitiana. Foto: Miriane Peregrino

Um haitiano de Bel Air na favela da Maré

Yves Mary tem 40 anos, é de Bel Air, um gueto de Porto Príncipe, Haiti. O gueto para o haitiano equivale para nós como favela. Segundo o brasileiro Pedro Braum, que morou 1 ano e meio em Bel Air, o gueto é um conjunto de favelas na parte central de Porto Príncipe: “É o primeiro bairro da cidade. É um bairro muito antigo e que se favelizou nos últimos 40, 50 anos, sobretudo, com imigrantes que vieram do interior do país, êxodo rural. E, desde então, mudou muito demograficamente mas sempre foi um lugar muito politizado e é, junto com outras favelas da cidade, a principal base de apoio do partido popular haitiano”.

Yves foi o único haitiano localizado na Maré até a conclusão dessa reportagem e, segundo ele, seus amigos tem medo de morar nas favelas daqui. “A favela daqui é diferente. O ritmo, a cultura… Eu trouxe um amigo aqui e ele não quis ficar. Ele não era de gueto, eu sim” – concluiu Pierre que decidiu se mudar para a Maré depois que passou a namorar uma moradora de lá.

Dois fatores parecem contribuir para a escassa presença de haitianos em favelas do Rio. Primeiro, é o fato de que a maioria dos imigrantes são do Norte do Haiti, área menos urbana e mais abastada, famosa por suas belas praias e pelo Parque Histórico Nacional, declarado Patrimônio Histórico da Humanidade pela Unesco em 1982. E, segundo, em razão dos conhecidos casos de violência policial que atingem as populações das favelas cariocas e o fato de que muitos dos soldados que participaram da ocupação militar do conjunto de favelas da Maré entre abril de 2014 e junho de 2015 haviam prestado serviço no Haiti através da Minustah. A ocupação militar do Complexo do Alemão, em 2010, também contou com esses soldados.

Força de pacificação na Avenida Guilherme Maxwell, na Maré, em junho de 2015. Foto: Miriane Peregrino

Força de pacificação na Avenida Guilherme Maxwell, na Maré, em junho de 2015. Foto: Miriane Peregrino

“A gente não gosta deles não” – afirmou Pierre em referência a Minustah – “O país é nosso. É por isso que sempre vai ter guerra. O Barack Obama tá mandando no país pra fazer muita merda no meu país. Eles não fazem nada, ao contrário, piora nosso sistema. Diz que vai dar segurança, mas mata criança, estupra… Eu não gosto deles. Pra andar em Porto Príncipe você tem que saber o ritmo, o bicho pega.”

Segundo Robert Montinard, ex-presidente da Associação de Haitianos Cariocas, há no Rio de Janeiro cerca de mil imigrantes haitianos. Número bastante baixo se comparado aos de São Paulo e aos do Rio Grande do Sul. No estado do Rio, há uma pequena concentração de haitianos na cidade metropolitana de São Gonçalo prestando serviços para uma empresa de coleta de lixo e sabe-se de mais duas nas áreas de Curicica e Asa Branca, zona oeste da capital. Na ausência de políticas públicas de acolhimento e apoio e no contexto da discriminação que esses imigrantes vêm sofrendo, hoje eles recebem assistência, principalmente, de ONGs e igrejas – a Católica e a Testemunha de Jeová.

O trabalho feminino é uma forte marca do cotidiano haitiano. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

O trabalho feminino é uma forte marca no cotidiano haitiano. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Yves afirma que os brasileiros são bem recebidos em seu país, mas nem sempre isso ocorre com os haitianos que vem para o Brasil: “O brasileiro tá achando que o seu país é o último país do mundo. Olha a pergunta que me fizeram um dia: ‘Por que você deixou o seu país? Por que veio pra cá? Se você fosse tão bom, por que você não ficaria no seu país?’. Quer dizer, não existe brasileiro no Haiti? É só haitiano que tem lá?”

Embora queira ingressar na universidade, ele conta que não quer mais ficar no Brasil: “Os haitianos não fazem nada de mal aqui no Brasil, só estamos trabalhando, estudando. Não fiz faculdade, tô querendo estudar, mas com o que já passei não tô querendo ficar mais aqui. Discriminação, questão de nacionalidade e raça… É muito difícil, muito.”

Yves está há mais de um ano e meio no Brasil. Atravessou o Equador e Peru até chegar em Manaus. Esteve em Rio Grande do Sul, Santa Catarina, Belo Horizonte e São Paulo, antes de chegar no Rio de Janeiro. Ele afirmou que, apesar da grande fila, a retirada do visto humanitário para o Brasil é fácil e que o maior problema, na verdade, é o custo da viagem – reclamação comum entre os imigrantes, pois com o aumento do dólar, as passagens áreas estão num preço inacessível tanto para quem quer vir quanto pra quem deseja voltar.

A capital haitiana concentra quase metade da população do país. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

A capital haitiana concentra quase metade dos habitantes do país. No espaço urbano, a pobreza atinge a maioria da população. Porto Príncipe, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Ao contrário do Brasil que é um país de proporções continentais e com forte fluxo migratório interno, o Haiti ocupa menos da metade de uma ilha da América Central e a proximidade com outros países propicia, há muito tempo, fluxos migratórios para outros países. Migrar é um traço comum em muitos haitianos: muitos vivem em trânsito entre as montanhas do Haiti e a capital, Porto Príncipe, e migram para a República Dominicana, Estados Unidos, França e Canadá.

A migração para a República Dominicana é a mais comum, porque são países vizinhos e dividem a mesma ilha do Caribe. No entanto, essa também é uma relação tensa onde podemos destacar o projeto de dominicanização da fronteira, iniciado pelo ditador dominicano Rafael Trujillo e que culminou no assassinato de cerca de 30 mil haitianos em 1937, e a sentença 168 de 2013, emitida pela Junta Central Eleitoral, que vem respaldando a deportação em massa de haitianos e seus descendentes do território dominicano, provocando recentes protestos em diversos países, inclusive no Brasil.

Conjunto habitacional construído para receber haitianos exilados da República Dominicana, localizado à beira da estrada e próximo ao lago Azuei, alguns quilômetros após o posto de Malpasso. A tensão entre os dois países continua nos dias de hoje. Fonds Parisien, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

Conjunto habitacional construído para receber haitianos exilados da República Dominicana, localizado à beira da estrada e próximo ao lago Azuei, alguns quilômetros após o posto de Malpasso. No local, o ar é muito seco e uma fina poeira branca cobre tudo que por ali passa, de certo, vinda das cavas de extração de areia nas montanhas do lado haitiano.  A tensão entre os dois países continua nos dias de hoje. Fonds Parisien, Haiti. Foto: Miriane Peregrino

França e Canadá também estão na rota dos imigrantes hatianos. Os Estados Unidos, que invadiu o Haiti pela primeira vez em 1915, há 100 anos atrás, também está nesta rota. De 1915 pra cá, os EUA mantém o Haiti direta ou indiretamente sob seu domínio tanto por interesses comerciais quanto políticos. Já o Brasil passou a ser um dos destinos migratórios dos haitianos depois que assumiu a chefia da Minustah, em 2004.

A histeria coletiva que tem tomado alguns grupos de brasileiros contra imigrantes haitianos parecem ser impulsionadas por uma acirrada discriminação racial e uma ascensão neofascista que vê nisto uma oportunidade para ganhar força, se colocar contra o governo federal e acentuar o quadro de crise. No entanto, os haitianos não são os únicos imigrantes que entram no Brasil, há outros grupos americanos e também europeus e asiáticos.

Por outro lado, não é a primeira vez na história que as elites do continente americano se incomodam com a presença haitiana. No século XIX, os motivos eram outros e esse medo ficou conhecido como haitianismo. As classes dominantes temiam que seus escravos repetissem o feito dos escravos haitianos, em 1804: se insurgindo contra seus senhores, conquistando a independência e promovendo a própria abolição da escravatura.

Mais sobre o assunto…

1. “Os jacobinos negros – Toussaint L’Ouverture e a revolução de São Domingos”, do historiador caribenho CLR James, Boitempo, 2000.

2. “Haiti por si: a reconquista da independência roubada”, Adriana Santiago (organizadora), Adital –Agência de Informação Frei Tito para América Latina, 2013.

3. “Os pecados do Haiti”, Eduardo Galeano, Carta Maior, 19/01/2010. Acesse em: http://www.cartamaior.com.br/?/Editoria/Internacional/Os-pecados-do-Haiti/6/15273

4. “100 anos da recolonização do Haiti pelas tropas dos Estados Unidos”, Maurício Campos, 29/07/2015. Acesse em: http://www.diarioliberdade.org/america-latina/direitos-nacionais-e-imperialismo/57074-100-anos-da-recoloniza%C3%A7%C3%A3o-do-haiti-pelas-tropas-dos-estados-unidos.html

5. “Rat pa Kaka: Política, desenvolvimento e violência no coração de Porto Príncipe”, Pedro Braum Azevedo da Silveira (brasileiro), tese de doutorado em antropologia defendida no Museu Nacional/UFRJ, 2014.

6. “As dinâmicas da mobilidade haitiana no Brasil, no Suriname e na Guiana Francesa”, Joseph Handerson (hatiano), tese de doutorado em antropologia defendida no Museu Nacional/UFRJ, 2015. 

7. “Dois Séculos de Imigração no Brasil: A Construção da Identidade e do Papel dos Estrangeiros pela Imprensa entre 1808 e 2015”, Gustavo Barreto (brasileiro), tese de doutorado em comunicação e cultura defendida na UFRJ, 2015.

*Sites

http://www.alterpresse.org/

www.telesurtv.net

http://haitinominustah.info/tag/rasin-kan-pep-la/

http://www.papda.org

*Essa matéria tem versão impressa no jornal Vozes das Comunidades, setembro 2015

**Essa matéria também está na página do jornal O Cidadão Online

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