Camelôs fazem manifestação no Centro do Rio contra fiscalização violenta da Prefeitura

Trabalhadores tiveram mercadorias apreendidas e foram impedidos de trabalhar 

Por Victor Barreto*

Concentração do ato na Candelária. Na camisa: Campanha de combate a criminalização do comércio informal. Movimento Unidos dos Camelôs (MUCA)

Concentração do ato na Candelária. Na camisa: Campanha de combate a criminalização do comércio informal. Movimento Unidos dos Camelôs (MUCA)

 Um protesto chamado “O camelô é meu amigo. Mexeu com ele, mexeu comigo” reuniu  camelôs nesta quarta (11.04), no centro do Rio, para denunciar a violência da Prefeitura contra os vendedores ambulantes. O Movimento Unido dos Camelôs (MUCA) convocou a manifestação pela manhã, com concentração em frente a igreja da Candelária e saída, em passeata, até a Prefeitura.

Entre outros assuntos, a pauta continha a violenta ação da Guarda Municipal e fiscais da Prefeitura, na noite do dia 7 de abril (sexta feira), para apreender mercadorias e impedir o trabalho dos camelôs. Alguns contam que, na ocasião, a Guarda Municipal e os fiscais da Prefeitura “varreram” diversos pontos do Centro do Rio e da Zona Sul como, por exemplo Av. Presidente Vargas, Lapa e as praças XV, Mauá, Tiradentes e São Salvador. Durante o protesto, os camelôs reafirmaram que não vão deixar de trabalhar, apesar da repressão.

Preocupação com o aumento das abordagens violentas

Idson José da Silva, que começou a atividade como camelô aos 9 anos, diz que, atualmente, vê uma postura indefinida da parte da Prefeitura, sem uma estratégia clara para tratar com os trabalhadores informais. “Assim, o cenário atual é incerto”, diz ele. A preocupação é que retorne a violência que foi marcante, principalmente nos mandatos do ex-prefeito Cesar Maia (o primeiro de 1993 à 1997; o segundo de 2001 à 2005; e o terceiro de 2005 à 2009).

Maria dos camelôs (à esq.) e Idson fazendo uma fala (à dir) na concentração do ato.

Maria dos camelôs (à esq.) e Idson fazendo uma fala (à dir) na concentração do ato.

Durante o primeiro mandato de Cesar Maia, o atual secretário municipal de Ordem Pública, Paulo Amêndola, coronel reformado da PM e um dos fundadores do Batalhão de Operações Especiais (Bope), em sua primeira passagem pela Prefeitura, implantou a Guarda Municipal, que foi comandada por ele de 1993 a 2000. Daí surge a preocupação dos camelôs em relação à volta da intensificação da repressão e violência contra os camelôs.

“Nunca vi uma política eficiente para de organizar o trabalho ambulante”, diz Idson. Com uma experiência de 47 anos de trabalho, boa parte como camelô nas ruas do Centro, ele acha que os camelôs são usados como bode expiatório para demonstração de força do governo”. Sobre a ação desta sexta-feira, ele conta que o caso que mais o comoveu foi o de uma senhora que teve sua mercadoria confiscada e, sem conseguido trabalhar, não tinha dinheiro nem para voltar para casa.

“os camelôs são utilizados(…) como bode expiatório de demonstração de força do governo” diz Idson

Falta de diálogo por parte da prefeitura

Conversamos também com Maria de Lurdes, a Maria dos Camelôs, liderança da categoria, que sustenta a família há 22 anos com o trabalho realizado no Centro do Rio.  Ao relembrar os governos de Cesar Maia, Luiz Paulo Conde, Eduardo Paes e incluir o de Crivella, ela nos conta que “sempre foi assim em relação à repressão por parte da Prefeitura”.

Maria concorda com Idson em relação à falta de estratégia da Prefeitura no trato com os trabalhadores ambulantes, principalmente neste período de altas taxas de desemprego. E conta que identifica novos rostos entre os camelôs do Centro do Rio. Por isso, ela considera importante marcar posição e mostrar à Prefeitura que os trabalhadores informais querem e precisam, mais do que nunca, trabalhar em melhores condições e com mais segurança.

“Não vou sair da cidade! Não vou abaixar a cabeça!” Maria dos Camelôs

Ela não entende como é possível haver uma reunião à tarde com a Coordenação de Controle Urbano (CCU), vinculada à Secretaria Municipal de Ordem Pública (SEOP), e, à noite, a Guarda Municipal cometer a violência que foi narrada. Entre os questionamentos dela, estão: qual vai ser a opção de vida para esses trabalhadores? Qual vai ser a reação das pessoas que tentam trabalhar e não conseguem? Para ela, um governo que diz que vai cuidar das pessoas, age de forma incoerente quando não olha para uma população que precisa trabalhar para sobreviver. Por isso ela é enfática quando diz: “Não vou sair da cidade! Não vou abaixar a cabeça!”.

* Victor Barreto é professor de Geografia e aluno da turma de 2017 do Curso Vito Giannotti de Comunicação Popular

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