Carnaval do Rio mostra que crítica social pode ser feita com diversão

Blocos vão às ruas para defender a democratização da mídia e a integração latino-americana

Por Sheila Jacob*, do Rio de Janeiro (RJ) – publicado em 19.2.13 no Brasil de Fato


Bloco “Fala puto que eu te escuto”. Foto: Samuel Tosta (Sindipetro-RJ)

Como muitos críticos têm alertado, nos últimos anos a espetacularização e a lógica de mercado vêm dando o tom do desfile das escolas de samba no rio. Salta aos olhos o luxo dos carros alegóricos e das fantasias que desfilaram pela Sapucaí. Longe das lentes da Rede Globo, no entanto, foliões do Rio tomaram as ruas da cidade para mostrar que a diversão do carnaval pode ter tudo a ver com as lutas do povo e com a construção de um mundo justo.

Liberdade de expressão, união dos povos latino-americanos, homenagens a lutadores do povo brasileiro e do mundo e a defesa dos direitos humanos foram cantados e dançados por milhares de foliões. Estes foram alguns dos temas abordados por blocos que na periferia, no centro e na zona sul mostraram que a política também dá samba. 

Amigos de 68

No início da tarde do dia 12, a rua Dias Ferreira, no Leblon, foi tomada por placas que estampavam imagens de Che e Fidel, bandeira da Venezuela e até um boneco do presidente Chávez. Foi dia do bloco Inimigos do Império, que ocupou o coração da zona sul. O samba de 2013 cantou e homenageou os presidentes Morales, da Bolívia; Cristina, da Argentina; Correa, do Equador; Mujica, do Uruguai; e, por fi m, grita “Viva Chávez, nosso bolivariano!”. Todas personalidades diariamente atacadas pelos meios de comunicação comerciais. Além dos foliões, a festa reuniu representantes da Casa da América Latina, Associação Cultural José Martí-RJ, Comitê Estadual do Rio pela Libertação dos Cinco Cubanos, Instituto João Goulart e outras. Para cobrir o evento esteve presente uma equipe da Telesur, canal de TV multiestatal com sede na Venezuela.

Blogo Inimigos do Império, em frente ao Bar Tio Sam

O bloco Inimigos do Império foi criado pelos Amigos de 68, grupo de remanescentes da luta contra a ditadura civil-militar. Há cinco anos a folia dos militantes é realizada em frente ao Bar Tio Sam, “território inimigo” ocupado por quem deseja se contrapor à soberania ideológica dos Estados Unidos. Cid Nelson, um dos fundadores do grupo, explica que a ideia veio do entendimento de que a luta contra a hegemonia estadunidense pode e deve ser feita em todos os meios, inclusive no carnaval. “Somos um grupo de resistência. Nosso estatuto diz que o propósito explícito desta intervenção cultural é denunciar, ridicularizar e se contrapor ao Império do Norte, ao neoliberalismo e todos seus defensores. Tudo isso de forma lúdica e prazerosa”, afirma.

Eliete Ferrer, também fundadora do bloco, conta que o objetivo do grupo sempre foi defender os povos oprimidos. “Já apoiamos a Palestina, hoje estamos fortalecendo nosso continente. Chega de os EUA acharem que podem, impunes, matar quem eles querem. Agora já até inventaram os drones [aviões sem piloto para matar civis no Oriente Médio em uma suposta ‘guerra ao terror]”, explica a militante. “Estamos aqui para lutar contra a opressão e para cantar a humanidade e a solidariedade entre os povos”, ressalta Eliete.

Autor de vários livros e membro do Conselho do Brasil de Fato, o jornalista Mario Augusto Jakobskind é um dos organizadores do bloco e um dos compositores do samba deste ano. “Apoiar a República Bolivariana da Venezuela e Chávez está na ordem do dia. Decidimos enfrentar o Império por meio de uma manifestação popular, mostrando que a politização e a alegria podem caminhar juntas.”, conclui.

Monopólio da mídia

O direito à comunicação é bandeira do bloco Fala Puto, que há quatro anos desfila na Cinelândia, no centro do Rio, e conta com a participação do bloco Lira de Ouro, de Duque de Caxias. O bloco foi criado por comunicadores populares com o objetivo abrir espaço no carnaval carioca para a luta pela democratização da mídia. “Com diversão também é possível tratar desse tema tão importante. Em quatro anos já falamos sobre a Conferência Nacional de Comunicação, denunciamos o monopólio da mídia, criticamos a imagem da mulher na TV, defendemos o marco regulatório”, conta Edson Munhoz, do Sindicato dos Petroleiros do Rio, entidade que patrocina o Fala Puto.

“O nome do bloco é irônico, já que nossa ideia é criticar a realidade da mídia no Brasil de maneira alegre, divertida. Esse puto tem várias interpretações. Nós, que estamos insatisfeitos com a concentração dos meios no país, temos que ficar putos, temos que reivindicar a garantia do direito à comunicação”, diz a jornalista Gilka Resende.

O também jornalista Arthur William, cantor do bloco e um dos compositores, explica que o fato de o grupo sair há quatro anos sem autorização da Prefeitura materializa a defesa do direito à comunicação e à folia por meio da ocupação do espaço público para expressar ideias contra-hegemônicas. “Blocos de rua como este são um contraponto ao carnaval comercial realizado pela maioria das escolas de samba e por alguns blocos patrocinados. Em nossa festa, cantamos a sociedade com a qual sonhamos, ajudando a construí-la na prática”, afirma.

Homenagem a Niemeyer

Há quatro anos estreava nas ruas da Cinelândia o bloco Comuna que pariu, criado por militantes da União da Juventude Comunista (UJC), do PCB. Ele ocorre neste local devido à história de resistência política e cultural da área, além de ser onde está localizada a Ocupação Manoel Congo, símbolo da luta pela moradia na cidade.

“A cultura pode servir de arma na luta de classes. Somos todos fi lhos da Comuna de Paris”, explica o professor de história Heitor Cesar Oliveira, um dos fundadores do grupo. Ele conta que o Comuna surgiu da ideia de que é possível usar elementos culturais para incentivar e ampliar a luta social. “Criamos o bloco para unir a alegria do carnaval à mensagem social. Já falamos sobre a Anistia, a campanha O petróleo tem que ser nosso e ano passado denunciamos as remoções ocorridas no Rio por causa da especulação imobiliária. Também fizemos, em 2010, uma homenagem ao MST”, enumera.

"Comuna que pariu" homenageia Oscar Niemeyer

Neste ano, no domingo, dia 10, a rua ficou lotada para ouvir o samba em tributo a Niemeyer, falecido recentemente. Victor Neves, um dos compositores do samba deste ano, disse que a escolha do tema foi “quase natural”, devido ao falecimento deste grande arquiteto. “Ele sempre assumiu publicamente sua posição de comunista fervoroso. Foi presidente de honra de nosso partido. Além disso, foi um dos maiores arquitetos do século 20”, explica.

Para Neves, o Comuna ajuda a refletir sobre que carnaval de rua os militantes querem e até que ponto aceitam a interferência do Estado que aí está. “Acredito que seria bom ampliar a participação de outros grupos de esquerda e movimentos sociais, que podem e devem se integrar à organização do bloco”, convida.

Bloco da Maré tem folia, militância e samba no pé

O objetivo dos militantes do Se Benze que dá é incentivar outros moradores a seguir a bateria

Por Gizele Martins*, do Rio de Janeiro (RJ)

‘Crack’ foi o tema escolhido pelos foliões do Se Benze no carnaval de 2013. O grupo, que já existe há oito anos, percorreu na tarde ensolarada do dia 16 de fevereiro as avenidas mareenses.

Bloco Se Benze que Dá, da Maré – Foto: Ingride Cristina/Imagens-do-Povo

“Todos os temas do bloco são escolhidos a partir de uma conversa e é sempre um assunto que esteja visível na Maré. Depois que a galera (usuários de crack) foi expulsa de Manguinhos por causa da entrada da Unidade de Polícia Pacificadora (UPP), eles vieram pra cá. Aqui tem um grande número de dependentes desta droga, e muita coisa tem acontecido com eles”, disse Priscilla Monteiro, moradora e foliã.

Segundo a mestra de bateria Geandra Nobre, é significativo desfilar pelas favelas da Maré cantando músicas que tratam de um tema tão presente no dia a dia dos moradores, como o crack é hoje. “Desfilar pela Nova Holanda, onde tem um foco grande de usuários de drogas me fez fortalecer ainda mais a luta no Se Benze. Foi um desfile político. A gente levou a mensagem de que este é um caso de saúde pública”, afirma.

Sucesso em bairro proletário

O bar Toca do Cajá, no Complexo da Penha, ferveu com o desfile do bloco Vai barrar? Nunca!
Por Tatiana Lima* – do Rio de Janeiro (RJ) 

O Centro Cultural Bloco Carnavalesco Vai Barrar? é um típico produto do Rio de Janeiro. Cidade em que há bairros, onde, ainda hoje, pessoas colocam as cadeiras nas portas das casas e se reúnem para conversar.

Foi em um encontro como estes que um grupo de moradores do Parque Proletário do Grotão, no Complexo da Penha, decidiu criar a Confraria Aliança. São 61 amigos que se reúnem para passar juntos os carnavais e comemorar outras datas. Só faltava um bloco. A Confraria não fez por menos. Em 2010, criou Vai Barrar? Nunca!.

Carnaval perto de casa

Curtir o carnaval sem sair do bairro é uma das alegrias do carioca. Dona Lili diz que adora o Vai Barrar? Nunca! “Não tínhamos carnaval de rua aqui. É muito bom ficar ouvindo a batucada do portão. Vai virar tradição no bairro, tenho certeza”, opina. “É meu camarote” conta Maria do Socorro. “Coloco cerveja no isopor, frito uns pastéis e caio na folia. Quando canso sento na cadeira de praia que coloco na calçada”.

No Grotão, hoje, o carnaval é bem animado. Quando o samba É brincadeira! E o circo chegou ecoou pelo bairro na voz de Eraldo Paz, todo mundo dançou. Punks, funkeiros, playboys uniram-se a donas de casa, operários e crianças e se transformaram todos em sambistas de primeira linha.

* As jornalistas Gizele Martins, Sheila Jacob e Tatiana Lima são do jornal Vozes das Comunidades

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