Complexo do alemão: o Art Dance e a volta do baile funk

O passinho é uma manifestação cultural que já acontecia entre os jovens de Nova Brasília (alguns vieram de outras cidades), no Complexo do Alemão, no Rio de Janeiro. O ponto de encontro do grupo era na Praça do Conhecimento.

ART Dance - Complexo do AlemãoO grupo Art Dance nasce com o boom dos passinhos: “No início, muitos criticavam falando que a gente dançava igual maluco”, conta um dos fundadores do grupo. Foi só após a criação das chamadas Batalhas do Passinho que houve uma mudança de olhar e novos interessados começaram a chegar no grupo. Os encontros começaram a se tornar rotineiros e com ponto de encontro fixo. O brizolão da favela passou a sediar esses encontros, por intermédio de um funcionário, morador do Complexo, que facilitou a entrada do coletivo e se responsabilizou por ele, junto com alguns parceiros.

Com objetivo de incentivar o potencial artístico, sem deixar de lado as questões sociais, o coletivo não se vê como um projeto social: “Não é um projeto social, não é o objetivo salvar vidas pela dança, mas salvar a própria dança”, diz Mc Calazans, que é produtor e grande incentivador do grupo.

 “Multiplicar resistências culturais também é nosso dever”

Com uma agenda de apresentações bastante apertada, o grupo já se apresentou em várias escolas no bairro da Penha e até na casa de shows, como Circo Voador, na Lapa, Rio de Janeiro. No entanto, o coletivo se mantem independente e com um compromisso com a comunidade. Ao lado dos frequentes debates sobre dança, técnicas e novas produções, os debates sobre os problemas por que passam e que passa a comunidade como um todo são frequentes entre o grupo, que busca formas coletivas de superação desses problemas.

“Porque o baile é um direito cultural que a favela criou pra ela mesma”

ART Dance ComplexoUm desses problemas que tiveram de enfrentar foi a proibição dos bailes funk, que aconteceu com a chegada do exército e a instalação da UPP em 2010. Várias tentativas pela volta do baile foram feitas, mas todas sem sucesso, pois a repressão era muito forte.

Maycom Brum e Raphael Calazans, que são dois dos organizadores do baile, contam que foi com a entrada da Associação de Profissionais e Amigos do Funk (Apafunk) com a campanha contra a Resolução 013 que o coletivo conseguiu identificar os problemas e se engajar na campanha de luta pela volta dos bailes nas favelas. “Com o anuncio do governador do fim da Resolução, percebemos que a polícia estaria mais frouxa nessa questão, pelo anúncio do Cabral e até pelas mobilizações. Alguns pagodes já estavam sendo autorizados, o que nos abriu ainda mais brecha”, observa Calazans.

De lá pra cá tiveram de dar alguns dribles para conseguir as autorizações, como ir à Região Administrativa e ao Comando Geral das UPPs. A estratégia era ir diretamente na Coordenação Geral das UPPs para que o comando local não tivesse como impedir a volta dos bailes, pois, caso contrário, certamente os pedidos seriam negados.

Não teve a tradicional ‘putaria’ e nem o conhecido ‘proibidão’, foi um baile diferente e bem aceito

Baile do Alemão

Hoje os bailes vêm acontecendo de forma tranquila, mesmo com a má vontade de alguns policiais, que fazem diversas rondas no local, mas nada encontram. A maioria dos moradores aceitou bem a volta do evento e participa botando barracas de comida e bebida, um meio de complementarem a renda familiar. No entanto, afirma Maycom: Eles (os moradores) precisam estar integrados com o processo de formação da volta dessa cultura, eles são os principais beneficiados, mas ainda há um grande preconceito”. E termina dizendo: “Nada nessa vida foi conseguido fácil. Não vou parar, não!”.

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