Comunicadores populares contam como foi visita a Acari

Como parte da aula do dia 13 de abril, os alunos do Curso de Comunicação Avançado do NPC, visitaram a favela de Acari. Publicamos aqui alguns depoimentos sobre a visita, guiada pelo poeta Wanderley da Cunha, conhecido como Deley de Acari, liderança comunitária histórica de lá.

  • Foi muito rica essa visita a Acari. Não fomos almoçar cedo. Na verdade, estávamos com a barriga nas costas. Daí eu percebi que nós não éramos os últimos a almoçar. Começaram a chegar pessoas da comunidade. Lembro de ter comentado com alguém este assunto e, logo depois, o queridíssimo Deley falou “a favela e está acordando agora”. A palavra de quem conhece e ama sua comunidade.

Por Keila Machado

 

  • Mesmo morando no Rio de Janeiro, sabendo da realidade que ocorre nas favelas, mesmo assim parece que estamos em outro mundo. Onde somos vistos como mais uma igreja em visita corriqueira ou em implantação de mais uma. É como se o olhar do povo não saísse daquele mundo chamado Acari. Mas ouvindo Deley percebemos que algo acontece e que acorda.

Por Rita Lima

 

  • Tenho uns conhecidos que moram lá, alguns amigos em favelas vizinhas. Já tinha escutado falar, conhecia pelos jornais, TV e até a famosa “musiquinha”, mas os relatos eram sempre de um lugar medonho dominado pelo tráfico. Nunca tive interesse de conhecer, até que tive a oportunidade de ver de perto a realidade das famílias que ali vivem… e para minha surpresa? São pessoas comuns e de bem como na minha favela. Provavelmente é o que falam por aí de todas as elas (favelas) sem nem viver lá, né?

Por Gabriela Cristina

 

  • Passar o dia em Acari foi mais ou menos como sair do Rio de Janeiro. Mas aí você pergunta: ué, Acari não fica no Rio? Bom, se for o Rio de Janeiro que o jornal, o rádio, o cinema e a TV nos mostram, definitivamente não. Longe da Zona Sul, longe da praia, habitado por gente humilde e trabalhadora, a favela de Acari é o oposto da cidade da ordem que a prefeitura se orgulha em mostrar. E por estar fora da rota turística-futebolística-olímpica, jamais vai ser “revitalizada” ou “pacificada”: não há interesse econômico. O problema, a única coisa que se esqueceu, é que a maioria das pessoas da real cidade do Rio de Janeiro mora em lugares como esse.

Por Alan Tygel

 

  • Neste sábado, 13 de abril do ano 2013, o Grupo Vozes das Comunidades visitou a favela de Acari. Cordialmente recebido pelo poeta Vanderley, escritor e militante carioca de longa data, que nos deleitou com as suas histórias junto ao mestre Candeia do Quilombo de Acari por volta dos anos setenta e nos contou como depois de tantas idas e vindas, acabou morando na favela Acari. Hoje ele é reconhecido como Deley de Acari. Vanderley nos disse: “Aqui o trabalho sempre foi intenso, nunca vou esquecer o dia 26 de julho de 1990. Várias pessoas foram sequestradas por um grupo de extermínio formado por policiais civis e militares. Nunca vou esquecer como a polícia entrou em casa alheia para assassinar de vez, a uma mulher com uma mão na testa e outra mão na barriga, uma morte em posição de proteção, ela pediu compaixão, mas não obteve”(..) “A partir de julho do ano 1996, 300 policias entraram em Acari e virou uma coisa similar a aquilo que hoje conhecemos como UPP, virou um posto estabelecido como DPO. Nesse momento, começaram a desaparecer pessoas da favela. Então o clima era de medo, ninguém podia protestar nem falar mal ou contra do governo. Essa ocupação policial durou até o ano 2003, quando o chefe da tráfico era o Betinho. Até dois ou três anos atrás ainda se escutavam gritos de torturas exercidas neste local que era o antigo DPO, atualmente conhecido e apropriado na cultura como Cachasarau Torresmo à Milanesa. Não foi fácil converter isso aqui num centro cultural, mas se conseguiu, e hoje temos apoio até internacional para desenvolver projetos de caráter cultural e de autogestão. Agora, no antigo alojamento dos Policiais, temos até, um atelier de serigrafia”. O caminho percorrido pela favela de Acari me lembrou das histórias dos quilombos, das feiras, da rosa e da capoeira. Tinha uma espécie de cadência quase natural, um equilíbrio entre as cores, os aromas, as vozes e as imagens. As pipas, as crianças, as músicas, o ar, as árvores e o céu ajudaram a relembrar os ancestrais, a periferia e a essência da favela, da resistência. Salve Deley, salve Acari e salve a Historia do povo carioca, do povo brasileiro

Por Natalia Urbina

 

  • Eu sou nascido e criado no morro do Jorge Turco, minha infância e adolescência é bem comum a da população local: festas, bailes funk e diversos eventos nas favelas da redondeza: Pedreira, Lagartixa, Divisa, Quitanda, Juramento e Para-Pedro. O Acari, até então, era uma favela próxima e ao mesmo tempo distante pela guerra do tráfico, pois no Jorge Turco predomina facção rival a do Acari e o clima de guerra atinge a todos, sejam envolvidos no tráfico ou não. Através do Bonde da Cultura, dos eventos culturais, das oficinas promovidos pelo poeta Deley e pelo Wesley, (em especial nesse dia com a turma do curso NPC) tive a oportunidade de conhecer particularidades da favela do Acari, que antes, era uma terra proibida.

Por Marlon da Silva

 

  • Estivemos sim! Lá em Acari. Conhecida de nome, Acari é uma favela como outra qualquer. Esquecida pelo poder público, desprovida de equipamentos urbanos e culturais, infraestrutura, etc. e tal… Desprovida, se considerarmos apenas os aspectos físicos. No entanto, depois de conhecê-la, andar por suas ruas, conversar com os moradores, comer com eles (pessoas iguaizinhas a nós!), percebemos que existe sim vida naquele lugar. A favela ferve! Acorda tarde no dia de sábado – como qualquer lugar – mas pulsa forte na batida do funk, no balanço do forró, na suavidade da poesia. Poesia esta apresentada, ensinada e ouvida no CACHASARAU, movimento cultural e de resistência que ocupa, sobrevive lá em Acari. Dizem que no final do mundo, todos correrão pra igreja. Pra descobrir, só indo a Acari, pois lá existe um lugarzinho chamado “Fim do Mundo”, que na verdade não parece tão fim assim. De lá se vê toda a Acari e as favelas vizinhas, como Jorge Turco, por exemplo. Avista-se de lá, de onde saem as pessoas que constroem essa cidade maravilhosa (pra alguns claro!). A resistência de Acari se reflete na figura de um homem. Empoeirado, de cabelos brancos, chinelo, bermuda e camiseta, mãos embrutecidas pelo trabalho. Porém de cabeça erguida pela comunidade, devido a sua luta contra a violência paralela e também do Estado. Figura que, assim como Acari, olhando de longe, sem conhecer, remeteria qualquer um ao desânimo, à pena. Mas que, em poucas palavras, e num apertar forte de mãos, passa esperança, orgulho e vontade de conhecer mais: Deley de Acari.

Por Douglas Heliodoro

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