Desativação do Lixão do Morro do Céu deixa catadores sem emprego

Por Camila de Araújo, Eric Fenelon, Leandra de Oliveira, Marta da Silva, Wanessa Castro, Pâmela Sebastião e Karina Corrêa

O governo estadual do Rio de Janeiro através do Projeto “Lixão Zero” planeja até 2014 erradicar todos os 92 lixões municipais e tratá-los em aterros sanitários. Isso porque os lixões são lugares onde o lixo é jogado sem qualquer tratamento ou seleção, causando danos ambientais e sociais. Como por exemplo, a contaminação das fontes de água, os riscos à saúde e à qualidade de vida da população que reside e trabalha nessa região. Mas acabar com os lixões não resolve todos os problemas. Muitos catadores que sobreviviam do trabalho no lixão perderam sua única fonte de renda.

lixao

Lixão continua a atrair ratos, urubus e porcos que circulam livremente na região | Foto: Camila de Araújo

Só a cidade de Niterói produz cerca de 700 toneladas de lixo por dia, segundo dados da Companhia de Limpeza de Niterói (CLIN).  O lixo da cidade era levado para o aterro controlado de Viçoso Jardim, mas este foi fechado e a prefeitura de Niterói passou a depositar o lixo no aterro de Gramacho, em Duque de Caxias. Como os custos dessa operação eram muito altos, houve a necessidade da criação de um vazadouro para o lixo da cidade. Sob o argumento de que não havia outro lugar para dispor o lixo local, em 1983, o Morro do Céu passou a receber resíduos de origem doméstica, comercial e hospitalar.

Grande parte dos moradores resistiu à colocação da lixeira. Houve protestos, manifestação bloqueando caminhões e fechamento de ruas. Porém, com promessas de benfeitorias na região como urbanização, asfaltamento, linhas de ônibus, parte da população acabou cedendo, com a esperança de melhoras nas condições de vida na comunidade.

Por um lado, o lixão levou uma série de problemas. Hoje, a população vive em condições totalmente precárias de saneamento básico (há um esgoto a céu aberto que passa no interior das casas de uma vila e os diversos casos de hepatite pela contaminação da água), sem calçamento, ônibus insuficiente, além de cheiro proveniente do lixo. Por outro lado, a presença do lixão levou meios de sustento direto para muitas famílias, que viviam da catação. Inclusive, levou também alguns benefícios como o Posto Médico de Família, projetos para crianças, creche, asfalto.

Canejo

Engenheiro Carlos Canejo, do INEA | Foto: Camila de Araújo

Segundo Carlos Canejo, engenheiro civil do Instituto Estadual do Ambiente (INEA), o lixão do Morro do Céu está operando parcialmente, com uma área em recuperação e uma área operando emergencialmente. Foi feito no INEA o licenciamento de uma célula emergencial – a Estação de Transferência de resíduos – onde já foram implantados os critérios de engenharia que são implantados nos aterros sanitários. E uma das prerrogativas desse licenciamento foi a retirada de todos os catadores.

Atualmente o lixo da cidade de Niterói é levado em carretas para o Aterro controlado de Itaboraí. Antes de ser despejado no aterro, esse lixo é acumulado na Estação de Transferência do Morro do Céu, onde recebe o equivalente a quatro caminhões de lixo compactado. Este maciço é agrupado nas carretas para só então serem transportadas ao Aterro Sanitário de Itaboraí. A ECONIT, em parceria com a CLIN, vem operando a estação, criando meios de trabalho pra os catadores fora do aterro, justamente para evitar todas as condições insalubres a que eram submetidos. Mas não atingiu a todos que ali trabalhavam.

Presidente Dejair

presidente da Associação de Moradores
do Morro do Céu, Dejair Silva | Foto: Camila de Araújo

O Presidente da Associação de moradores, Dejair Silva, diz que chegaram a ser oferecidas oportunidades de trabalho nos galpões de reciclagem e coleta seletiva do aterro sanitário, mas isso não supriu a demanda. Sem alternativas de trabalho, o desemprego se agravou na comunidade, piorando as condições de vida da população – já que muitas famílias viviam da catação.

Carolina de Freitas, de 18 anos é ex-catadora e conta das dificuldades que encontra até hoje, sem emprego. “Minha mãe trabalhou durante anos na lixeira. Ela teve um derrame e não recebeu nada! Eu e meus irmãos, para ajudar, trabalhávamos lá também. Ela foi se recuperando com dificuldade. Quando resolveram fechar o lixão após as chuvas de abril de 2010, minha mãe foi morar em um hospital desativado lá em Santa Rosa. Agora ela fica catando coisa aí na rua para vender”.

Todo esse processo de recuperação e encerramento do lixão também teve como consequência a retirada de Projetos como o “Criança no Lixo Nunca Mais”, que oferecia cursos e atividades culturais para jovens e crianças da comunidade, além de uma ajuda de custo para as crianças participantes. Por ser considerada uma área de risco, o médico de família também foi retirado do local.

Moradores também se sentem lixo

Segundo Carlos Canejo, do INEA, o lixão é uma zona de exclusão social. “É o lugar que a sociedade não quer ver, com uma série de doenças. É o ponto final de tudo o que está sendo descartado. É por isso que a gente não vê um lixão próximo da Zona Sul, em lugares onde a elite está”, observa.

A diretora da Associação de Moradores do Morro do Céu, Rosileia Silva, concorda com essa opinião, e diz que os moradores se sentem tratados como lixo. “Aqui a gente recebe o lixo da madame, do desembargador, do prefeito e ao mesmo tempo nós não temos nada. Ou seja, somos lixo também. Não temos ruas asfaltadas, luz nem encanamento. Para eles tanto faz, jogam fora e acabou”.

Ela critica a falta de alternativas a quem dependia do lixão para sobreviver. “A comunidade está esquecida, tiraram nossa única fonte de renda e nem sequer ofereceram cursos de capacitação pro povo trabalhar em outra coisa. Poderiam dar cursos de manicure, auxiliar de pedreiro, mecânica, entre outras coisas… Mas nada foi oferecido”, afirma.

A Prefeitura de Niterói foi procurada para prestar esclarecimentos, mas até o fechamento desta edição não entrou em contato com o Jornal.

 

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