Em Niterói, drama das vítimas das chuvas de 2010 permanece

Desabrigados contam sua vida três anos depois

[Por Claudia Santiago, Eric Almeida, Euro Mascarenhas, Renato Prata, Sheila Jacob/ Fotos: Adriana Medeiros e Eric Almeida]
Publicado no Brasil de Fato

6 de abril de 2010. Data triste na lembrança daqueles que viveram ou acompanharam a destruição causada pelas fortes chuvas que resultaram na morte de 170 pessoas e cerca de dez mil desabrigados em Niterói. O episódio ficou conhecido como Tragédia do Bumba, pois a comunidade que leva este nome teve o maior número de vítimas dos desabamentos que ocorreram naquele dia: foram 47 mortos em apenas um dia, e mais de três mil famílias que moravam na comunidade ficaram desabrigadas. São muitas histórias de sofrimento e tentativas de começar tudo de novo.

Uma destas histórias é a de Leandra Maria de Oliveira, que nasceu em Volta Redonda e hoje tem 40 anos. Viveu 16 anos no Morro do Bumba, no bairro Viçoso Jardim, em Niterói. A comunidade foi seu lar até o fatídico dia em que a tempestade destruiu sua casa de três quartos, sala, cozinha, banheiro e um grande quintal. Hoje, três anos depois, ela vive com seus cinco filhos e mais um neto em um quarto em um abrigo no 3º Batalhão de Infantaria do Exército (BI). Lá estão outras 300 pessoas, metade delas crianças e adolescentes.

Nos dias que sucederam ao desabamento, os desabrigados se dividiram em dois abrigos oferecidos pela prefeitura de Niterói: o 3º BI, que fica em Venda da Cruz, São Gonçalo, e o 4º G-CAM, localizado no bairro Barreto. Este último foi desativado em 2011 de forma bem violenta, como lembram as pessoas que lá viviam na época. “Acordamos de manhã com cachorros e a tropa de choque em cima da gente. Os vizinhos não nos queriam ali porque achavam que a nossa presença desvalorizava a área”, conta Leandra em entrevista ao Brasil de Fato. “Tiraram a gente de lá e nos jogaram neste verdadeiro inferno. Diziam que seria provisório, que ficaríamos aqui apenas seis meses, mas três anos se passaram e tudo continua igual”, diz inconformada.

A Prefeitura de Niterói informou que as famílias que estão no 3º BI são assistidas por seis assistentes sociais e psicólogos e oito profissionais de saúde que trabalham de segunda a sexta, das 8h às 18h. Disse, ainda, que a Companhia de Limpeza de Niterói (Clin) atua regularmente no local. Diz que também está sendo feita a revisão dos sistemas hidráulico e elétrico e da rede de esgoto do abrigo, poda de árvores e troca de lâmpadas. Uma piscina, que há anos não recebia tratamento, foi aterrada após as denúncias começarem a aparecer em diversos veículos de mídia.

Banheiro do abrigo. Foto: Mandato Henrique Vieira

A versão de quem está no abrigo, no entanto, é bem diferente. Não faltam reclamações por parte de quem está lá: comida estragada, estrutura precária, com goteiras e inundações, falta de higiene e esgoto a céu aberto. Todas essas denúncias foram confirmadas após uma rápida visita ao local. Os moradores relatam ainda a presença de ratazanas e casos de doença, como hepatite e tuberculose. Recentemente houve um surto de diarreia no local e, nos últimos doze meses, duas crianças morreram por pneumonia. Mesmo assim, segundo Leandra, nada foi feito para dar mais assistência aos moradores. “O atendimento à saúde aqui é precário. O posto de saúde não funciona direito, em casos de doença temos que procurar atendimento fora. O [atual prefeito] Rodrigo Neves disse durante a campanha que iria reativar o Hospital Getulinho, mas o que ele fez foi colocar uma lona e atender as pessoas de maneira improvisada”, informa.

Depois da perda da casa, Leandra vivenciou outra grande tristeza: na noite do dia 31 de dezembro de 2011 seu marido, Evaldo, teve uma parada cardíaca. O Posto de Saúde do abrigo estava fechado naquele momento e uma viatura da polícia civil chegou a ir buscá-lo. Quando viram que ele tinha uma perna amputada, disseram que não podiam levá-lo. A SAMU levou duas horas e meia para chegar e não havia mais tempo para salvar a vida dele. Já chegou morto ao Hospital Estadual Azevedo Lima. Outra consequência na vida de Leandra foi a perda do emprego. Ela trabalhava como empregada doméstica perto do Bumba. Estando longe, no 3º BI, em São Gonçalo, não conseguia mais ir a pé para o trabalho, a patroa se recusou a pagar a passagem e ela não pôde continuar o serviço.

Como vivem, hoje, as vítimas da tragédia
Marta preferiu voltar para área de risco a suportar as condições do abrigo

 

Leandra, seu filho Rafael e Marta: vítimas da tragédia

 São diversos os destinos de quem perdeu tudo na tragédia: muitos encontraram abrigo em casa de parentes e outros passaram a viver de aluguel. Há também os que viraram população de rua e os que se envolveram com drogas, como o crack. Algumas pessoas voltaram a morar em área de risco, esperando o apartamento prometido pela Prefeitura. Este é o caso de Marta da Silva, que voltou para o local em que morava. Ela também havia sido levada para o 3º BI, mas não aguentou as condições do abrigo.

“No início, as coisas eram bem diferentes. Sob o impacto da tragédia e da presença da imprensa e dos movimentos sociais, os abrigos reuniam área de recreação, quadra de esporte, lazer, serviço de limpeza, posto de saúde, aulas de artesanato. Hoje não tem mais nada disso”, lamenta. Ela e outras 3000 pessoas recebem o aluguel social oferecido pelo Governo do Estado, de R$ 400,00 por mês. Mas, como afirma Marta, a quantia não é suficiente para pagar outra moradia. Resultado: voltou para sua antiga residência, que foi interditada por estar em área perigosa. “Estou escrevendo um livro para contar toda essa história, pois a gente não tem muito espaço pra falar sobre nossos problemas, nossas dores. Os jornais só nos procuram no aniversário da tragédia. É sempre assim, só de ano em ano a gente aparece”, desabafa.

As histórias de Leandra e Marta mostram como a tragédia de abril de 2010 não terminou para essas famílias. Será que dá para tirar uma lição positiva de tudo isso? Para Leandra, isso é possível sim. Segundo ela, um grande ensinamento foi aprender a lutar por si e pelos próximos. Depois da tragédia, ela e Marta passaram a militar no Movimento dos Trabalhadores Desempregados (MTD); foram lideranças que nasceram da indignação frente à injustiça e da dor da impunidade. Há cerca de um ano começaram a oferecer serviços de bufê, lanches e refeições variadas após criarem a cooperativa Olga Benário, em homenagem ao exemplo de luta dessa grande mulher.


Condomínio Zilda Arns tem que ser demolido
Prédios construídos para desabrigados apresentam rachaduras e ameaçam cair

 

Prédios do Condomínio Zilda Arns sendo demolidos

Marta, Leandra e outros sobreviventes viram a esperança de refazer suas histórias desmoronar junto com os prédios que foram construídos no Morro do Castro, bairro Fonseca, com recursos do Programa Minha Casa Vida Minha Vida. Os conjuntos Zilda Arns 1 e 2, para onde as duas iriam em julho, tiveram de ser demolidos no final de março após apresentarem rachaduras e risco de desabamento. Marta lamenta a perpetuação de seu sofrimento. Ela conta que já estava com a mudança praticamente pronta, e havia preparado inclusive um chá de panela para inaugurar o novo apartamento. Feliz da vida, acreditava que estava muito próxima a oportunidade de reconstruir sua história. “Mas aí vem mais essa tragédia, os prédios começaram a desmoronar e sabe-se lá quando a gente vai ter paz de novo”, diz.

A Caixa Econômica Federal, financiadora do programa, informou que contratou uma perícia técnica para a conclusão de um estudo para identificar o que provocou os danos recentes. A expectativa é que o laudo saia em até 15 dias após a demolição, que começou no sábado, dia 23 de março. A retomada das obras vai ocorrer após a apresentação de um novo projeto, que deve atender às recomendações apresentadas nos laudos técnicos.

Encosta ameaça cair sobre prédio destinado às vítimas da tragédia de 2010

Além dos problemas relativos ao Zilda Arns, prédios já entregues a sobreviventes das chuvas também apresentam irregularidades. O governo do Estado ergueu 180 apartamentos em Viçoso Jardim, bem próximos ao Bumba e entregou aos moradores em dezembro do ano passado. “Em inspeção ao local um funcionário do Crea [Conselho Regional de Engenharia e Agronomia] disse que há risco de desabamento. Depois a Defesa Civil confirmou o perigo”, conta o vereador Henrique Vieira (PSOL/RJ). Alguns apartamentos dos últimos andares apresentam problemas, como falta de piso, infiltrações, rachaduras e o pior: uma encosta sem contenção que ameaça cair pelo menos sobre um dos prédios (foto). Mesmo assim, Luis Antonio Ermita, um dos moradores, diz que após a tristeza de enterrar sete pessoas de sua família, está satisfeito com a transferência para lá. O título de propriedade só será entregue daqui a cinco anos, quando haverá uma proposta de financiamento.

CPI pretende apurar responsáveis pela situação dos desabrigados
Niterói tem déficit de habitação estimado em 20 mil moradias

O vereador Henrique Vieira (PSOL/RJ) solicitou, no dia 15 de março, a instalação de uma Comissão Parlamentar de Inquérito (CPI) para apurar as irregularidades e a responsabilidade pela situação em que se encontram os sobreviventes das chuvas de 2010. Professor de história e teólogo, Vieira afirma que a tese central da CPI é a de que houve “um processo de reprodução cotidiana da tragédia”. Isso porque a ausência ou a ineficiência das políticas públicas fizeram com que ainda hoje exista esse quadro de sofrimento relatado por Leandra, Marta e comum a tantos outros desabrigados.
“Essa tragédia só veio confirmar a segregação socioespacial e o evidente recorte de classes da cidade de Niterói. Quem são os principais impactados pelas chuvas? Moradores de comunidades, negros e de baixa renda. Para se ter uma ideia, dos 170 mortos em 2010 apenas um não era pobre. Torna-se, assim, evidente um modelo de cidade excludente, elitista, voltado para os negócios, de encarecimento dos espaços e de dificuldade de acesso a moradias de qualidade”, observa Vieira, que é presidente da Comissão de Meio Ambiente.

Além de denunciar os responsáveis por essa situação, Vieira acredita no potencial que a CPI tem de sensibilizar a opinião pública para o debate sobre o modelo de cidade atual e a quem ele tem servido. Para ele, é necessário ir além das questões pontuais e tratar de problemas estruturais da cidade de Niterói, como o déficit de habitação, estimado em 20 mil moradias. Uma das principais questões a ser investigadas é, segundo Vieira, a existência de prédios e terrenos em áreas centrais da cidade que vêm sendo destinados à especulação imobiliária por meio das Parcerias Público-Privadas. Enquanto isso, os imóveis que vêm sendo construídos reafirmam o caráter de desigualdade socioespacial, pois os condomínios Zilda Arns 1 e 2, que já apresentaram problemas, não estão em locais aparentemente adequados, com denúncias de riscos, menos infraestrutura e dificuldades de acesso.

Para o vereador, outra das dificuldades é o fato de o Plano Diretor de Niterói estar atrasado em 11 anos. Essa defasagem impede a avaliação da cidade como um todo e a longo prazo. “Por este motivo, a especulação imobiliária vai fatiando a cidade ponto a ponto, infelizmente com gerenciamento da Prefeitura e a conivência da Câmara Municipal. Ninguém debate a cidade como um todo. A questão dos desabrigados é sintoma de um modelo empresarial de desenvolvimento, em que a cidade é vista como espaço de negócios e não de sociabilidade e afirmação de direitos”, explica.
Para instalar a CPI, é necessária a adesão de sete vereadores. Até o fechamento desta edição, seis haviam assinado: Henrique Vieira, Renatinho e Paulo Eduardo Gomes, do PSOL/RJ; Bruno Lessa, do PSDB/RJ; Priscila Nocetti, do PSD/RJ; e Pastor Ronaldo/PTN.

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