Museu da Maré comemora 10 anos com muitos desafios pela frente

Por Miriane Peregrino

Muito o que comemorar por seus 10 anos de existência e muito pelo que continuar lutando também. A ameaça de despejo iniciada pelo Grupo Libra, empresa proprietária do imóvel onde o Museu da Maré está instalado, permanece em vigor e a empresa continua intransigente nas negociações. 

Alunos do curso de comunicação comunitária do jornal o cidadão fazem aula no museu da maré no sábado, 7 de maio.

Alunos do curso de comunicação comunitária do jornal o cidadão fazem aula no museu da maré no sábado, 7 de maio.

Um museu de baixo pra cima

Neste domingo de Dia das Mães, a casa da memória mareense, o Museu da Maré, completa 10 anos. Inaugurado em 8 de maio de 2006 por um grupo de moradores da Maré, no maior conjunto de favelas do Rio de Janeiro, o museu é uma referência nacional e internacional na área de museologia social. Isso não só porque preserva a memória das classes populares mas também por ser uma iniciativa que parte de dentro pra fora da favela, de baixo pra cima, movendo o centro do poder decisório do que é memorável na cidade.

“O museu constrói uma história vista de baixo e que se desvincula da historiografia oficial que é sempre a história dos vencedores, a história que a gente é acostumado a ouvir desde criança” – observa o historiador e morador da Maré, Humberto Salustriano, 37. – “Então, o Museu da Maré é a oportunidade de contar essa história do ponto de vista daqueles que são sempre considerados subalternos, ‘os vencidos’. O museu tem sua importância por causa disso. É uma contra hegemonia”.

O também historiador e morador da Maré, Francisco Overlande, 42, afirma que o Museu da Maré contribui para o rompimento de estereótipos em torno da favela e seus moradores: “O fato do museu existir já é bem simbólico e representativo. Rompe um pouco essa ideia de que museu tem que ter um perfil, tem que ter um estereótipo e tem que estar em determinadas áreas da cidade. Ter um museu na favela já rompe com isso”. Francisco ilustra esse rompimento de estereótipos contando a reação de alguns taxistas quando pede para deixa-lo no Museu da Maré: “Quando eu falo ‘me deixa no Museu da Maré’, os taxistas perguntam: “Ué, na favela tem museu?”.

A artista plástica e professora do Departamento de História de Arte da UERJ, Leïla Danziger, 54, visitou o museu recentemente e afirmou que “foi uma experiência expansiva em relação aos territórios da cidade” onde nasceu e onde vive.  

“Visitar o Museu da Maré implicou uma expansão ​ na minha capacidade de imaginar a cidade,​ no espaço e no tempo, e me ajuda a pensar/ desejar uma cidade que vai resistindo ao capital, à especulação, às narrativas perigosamente hegemônicas, e  que vai se tornando mais inclusiva, humana, complexa” – afirmou Leïla Danziger – “A partir do museu é possível que se compreenda que ali vivem e viveram gerações que literalmente construíram o Rio e foram perversamente excluídos do projeto da cidade maravilhosa. Claro que o Museu da Maré é fundamental para que a gente possa imaginar a cidade – imaginar em sentido forte​. Precisamos não apenas da política, mas também da imaginação ​trazida pela arte e pela literatura para dar forma a uma cidade que seja efetivamente de todos”.

Outro aspecto importante a destacar é que o Museu da Maré não é um museu de mera contemplação. A dinâmica de aquisição de objetos e integração com o espaço amplifica seu potencial como espaço não-formal de educação. O que mais impressionou a professora Danziger foram os “conceitos que estruturam o museu e guiam a visita”. Segunda ela, a “cenografia é potente e discreta ao mesmo tempo, acolhedora, sem espetacularizar ou fetichizar a memória”.

Embora formalmente constituído como museu em 2006, as ações do Museu da Maré de preservação da memória da favela remontam aos anos 80 quando os moradores iniciaram entrevistas para a TV Maré produzindo grande material jornalístico e histórico sobre a história local.

Moradores da Maré ocupam o museu com diversas ações

Aulão realizado no museu da Maré

Aulão realizado no museu da Maré

Projetos internos do CEASM e projetos de grupos externos tanto da Maré quanto de outras partes da cidade, também são abrigados no Museu da Maré. Francisco Overlande que também é coordenador do Curso Pré-vestibular (CPV) da ong Centro de Estudos e Ações Solidárias da Maré (CEASM) informou que aulões temáticos são realizados ao longo do ano no museu.

“Desde que o museu foi criado a gente faz atividade lá até porque o museu é um projeto do CEASM. Toda vez que é necessário pra atividades extras como aulões, festas de confraternização ou qualquer outra demanda especifica do CPV que exija um espaço maior, o museu é o espaço que usamos”. Francisco informa ainda que essa relação não se limita a usar o espaço físico pois educadores e educandos do CPV vão ao museu também em função da programação de atividades que oferece.

O CPV CEASM foi criado em 1997 e recebe anualmente cerca de 150 estudantes moradores das favelas da Maré e proximidades. O pré-vestibular comunitário tem um longo histórico de aprovação de jovens oriundos das camadas populares para universidades públicas no Rio de Janeiro. Só no ano passado, cerca de 30 alunos do CPV CEASM ingressaram em universidades públicas.

“Fui aluno da primeira turma do CPV, em 1998, e depois retornei como educador. O Chiquinho foi meu companheiro de turma” – contou satisfeito Humberto Salustriano que também é professor de história no pré-vestibular.

Ontem, o jornal comunitário O Cidadão realizou uma aula do seu curso anual de comunicação comunitária no Museu da Maré. Segundo a repórter d’ O Cidadão e moradora da Maré, Valdirene Militão, 42, toda edição do curso preocupa-se em falar da história da Maré e fazer uma visita guiada ao museu, além de usar o espaço também para ministrar algumas aulas da grade do curso.

“Sempre fazemos alguma atividade no museu por causa do histórico da Maré e por causa da exposição” – afirma Valdirene que também é uma das organizadoras do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Cidadão – “Quando a gente traz alunos, quando a gente pensa uma aula aqui é uma forma de fortalecer esse espaço”.

O grupo de teatro Maremoto, que teve sua origem nas oficinas do projeto “Teatro do Oprimido na Maré” do Centro do Teatro do Oprimido na comunidade, também usa o espaço do Museu da Maré para guardar equipamentos e realizar seus ensaios. A contrapartida é realizar também apresentações no espaço. Vinicius Alves, 19, morador e curinga comunitário do Teatro do Oprimido nos contou que Maremoto é um jogo de palavras que significa “Maré em movimento do teatro do oprimido”.

“Como morador acho super interessante existir esse museu e a gente conseguir um espaço aqui pra fazer nossos ensaios só prova que o museu foi feito para os moradores. Tanto é que não tem só a gente aqui, tb tem outras oficinas que atende a população” – conta Vinícius Alves.

Carlos Gonçalves, 25, morador da Maré e integrante do Fórum da Juventude do Rio de Janeiro lembra que é a partir do evento que realizaram usando o espaço do Museu da Maré que começaram a divulgar o aplicativo “Nós Por Nós” no conjunto de favelas.

“O Museu da Maré cedeu o espaço pra gente fazer uma intervenção aqui na Maré pra potencializar a divulgação do aplicativo. O processo de divulgação do aplicativo Nós Por Nós, aqui na Maré, se iniciou aqui no Museu da Maré” – disse Carlos Gonçalves – “O museu vem sempre ajudando a gente no sentido de ceder espaço para atividades de direitos humanos, atividades dos movimentos sociais. Principalmente nesse debate sobre a questão do genocídio da juventude negra”. 

Visitantes relatam sua experiência de visita ao Museu da Maré

As alunas do 4º Curso de Comunicação Comunitária do Jornal O Cidadão, Carolina Marinho, Ítala Barros, Josiane Santana e Luana de Moraes que estiveram ontem em aula no Museu da Maré comentaram suas impressões sobre o espaço.

“Eu já sou formada em jornalismo mas a verdadeira escola pra mim está sendo aqui” – iniciou Carolina Marinho – “Estou tendo contato com pessoas incríveis que estão me mostrando uma outra visão do que é narrar o dia a dia de uma comunidade, como é comunicar de fato e o museu… eu tô completamente encantada é a 1ª vez que venho aqui”

Josiane Santana, que assim como Carolina é moradora do complexo do Alemão, também ficou impressionada com o museu:

“Quando coloquei o pé ali na porta e vim entrando pela salinha, eu já achei o museu fantástico. É um museu bem diferente do que a gente está acostumado a ver. E eu me senti como se eu estivesse dentro da minha casa. Quando vi aqui na casa da palafita esses quadros…” – ela disse apontando para as paredes do barraco e continuou – “lembrei muito da minha avó. Lembrei muito da casa da minha avó, dos quadros, das fotos antigas. Remete muito a lembranças familiares, sabe? Essa coisa mesmo do passado, de como era a casa da nossa bisavó, da nossa avó. Achei muito aconchegante, muito familiar e me emocionou”.

Já a jovem Ítala Barros, moradora de São João de Meriti, relacionou o museu com memórias do subúrbio carioca:

“Acho que hoje está sendo a melhor aula porque esse lugar é muito grande, muito bonito e tem uma riqueza de detalhes que não só recontam a história da Maré mas também falam da história do subúrbio. Acho que todo mundo que entra aqui vai encontrar pelo menos uma coisa que vai lembrar sua avó, sua bisá, alguém da sua família porque tem muito ponto de convergência!” – afirmou Ítala Barros.

Luana de Moraes também achou fundamental ter aula naquele espaço: “É o tipo de comunicação que eu acredito e ver isso acontecer na prática é totalmente diferente de quando eu via e refletia sobre, né? Então, está sendo incrível pra vida, pra minha profissão. Vou pensar em outros modos para além da academia e acho que isso é fundamental”.

Uma das organizadoras do curso, Valdirene Militão lembrou do impacto que a casa de palafita exposta no museu causou em sua primeira visita: “Eu adoro o museu. O museu é a minha cara. Esse barraquinho… A minha casa, que era um barraquinho, era igualzinho a esse. A primeira vez que eu vim aqui me emocionei. Eu chorei. Minha mãe chorou. Minha irmã chorou. A minha sobrinha conheceu o lugar em que nós moramos. Porque hoje em dia as pessoas veem muito casa de alvenaria e quando você fala de barraquinho as pessoas não tem muita noção do que é”.

Leïla Danziger, professora da UERJ e moradora de Copacabana, relatou que olhava as palafitas da Maré quando passava de carro pela Avenida Brasil e afirmou não saber o quanto dessa lembrança se mistura a fotos vistas.

“Essa lembrança, mesmo vaga e incerta, foi ativada pela visita ao museu, que mistura história, memória e ficção, e que assim produz e projeta identidades e destinos possíveis para os que moram na Maré e para todos os cariocas. Ali, todos são convidados e acolhidos  – os que vivem nas comunidades da Maré e os que passam de carro ao longe, e pela visita ao museu, podem incluir aqueles territórios da cidade a partir de outros parâmetros, distintos da violência propagada pela mídia” – analisa a professora – “O Museu da Maré – naquele lugar específico, com a sua história específica (que resiste à especulação…) – é fundamental para que a cidade resista e se abra em narrativas múltiplas, em possibilidades de vida mais dignas, porque marcadas pelas memórias e singularidades de cada um, de cada grupo, de cada geração…” 

 

A luta continua! Programação do Museu da Maré 10 anos

Primavera de Museus, 2014 l Foto: Reprodução Museu da Maré

Primavera de Museus, 2014 l Foto: Reprodução Museu da Maré

Às classes populares, o direito à moradia residencial e o direito à moradia da memória são constantemente negados, somando-se a lista de violações de direitos humanos em curso numa cidade que, cada dia mais, é feita para ser mercadoria, produto na prateleira de quem tem dinheiro. A capacidade da população pobre de se reinventar é inegável, mas até que ponto essas comunidades vão ter que se reinventar? Até que ponto o pobre vai ter que criar e recriar alternativas contra hegemônicas? O tempo do futuro é uma interrogação. Mas uma interrogação que é respondida pela prática diária de luta.

A comemoração dos 10 anos do Museu da Maré vai incluir a produção de um documentário e a publicação de livros, além do Chá da Memória que será realizado dia 19 deste mês.

“Os 10 anos caem num domingo que cai no dia das mães aquelas coisas então a gente resolveu fazer uma programação na Semana Nacional de Museus que é do dia 16 a 22 de maio” –  informou Cláudia Rose, coordenadora do Museu da Maré – “Na verdade, dia 12 teremos a 1ª oficina de construção coletiva do documentário “Museu da Maré 10 anos”. Vai ser dia 12, às 15h e a gente vai abrir pras pessoas contribuírem. Na verdade a gente está convidando pessoas, é aberto. Quem chegar, chego, e a gente vai construir o vídeo juntos”.

Segundo o diretor, Luiz Antônio, o Museu da Maré também fará a publicação de alguns livros como parte das comemorações dos 10 anos do Museu da Maré.

“Um sobre os doze tempos da Maré que é um livro de imagens com alguns textos sobre os tempos do museu. E o outro sobre a Baia de Guanabara com alguns artigos escritos pelo Magalhães Correa, que escrevia pro jornal Correio da Manhã e chegou a fazer o livro “Os sertões cariocas”. O livro será um subsidio muito bom para historiadores. Até o final do ano, pretendemos lançar uma edição revisada do ‘Contos e lendas da Maré’. Também pretendemos fazer um livro sobre o bairro Maré, mas isso está sendo visto vai depender de recursos para publicação desse livro”. – contou Luiz Antônio.

O Museu da Maré irá disponibilizar em sua página no facebook a programação completa de aniversário. Não deixe de acompanhar por lá!

 

Mais sobre o despejo do Museu da Maré

6 de maio de 2015

Museu da Maré completa 9 anos de criação e enfrenta ameaça de despejo

http://vozesdascomunidades.org/museu-da-mare-completa-9-anos-de-criacao-e-enfrenta-ameaca-de-despejo/

 

22 de outubro de 2014

De dentro da Maré: ato contra o despejo do Museu da Maré movimenta a Avenida Brasil

http://www.anf.org.br/de-dentro-da-mare-cronica-da-caminhada-da-resistencia-em-defesa-do-museu-da-mare/

 

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *