O caso Amarildo no Programa da Fátima Bernardes

 Por Juliana Kabad*, em 30/09/2013

Foto: Globo.com

Foto: Globo.com

Por um acaso, acabei de ver o programa Encontro na TV Globo, apresentado por Fátima Bernardes, que trouxe um especial sobre família.

Para esse especial, a esposa Elisabeth e os seis filhos de Amarildo foram convidados para falar sobre o seu desaparecimento e a situação atual da família.  Além disso, a produção do programa viabilizou um encontro surpresa de Elisabeth com seus pais e suas duas filhas que ela não via há 30 anos e com os quais havia perdido o contato desde que ela saiu do Rio Grande do Norte e veio para o Rio de Janeiro. Em função das notícias sobre o Amarildo em rede nacional, a filha mais velha conseguiu localizar a mãe através da TV – a única informação que a menina tinha era de que a mãe era parecida com sua tia, morava na Rocinha e que se casou com um homem chamado Amarildo, sequer possuía uma foto. Toda a produção foi trabalhada para a emoção do encontro da mãe com as filhas e os pais. Tinha inclusive a presença de um psicanalista analisando a situação. Na ocasião, até chegaram a montar uma árvore genealógica da família até os pais de Elisabeth e Amarildo. A produção também se voltou para um dos filhos do casal que agora está seguindo carreira de modelo com o apoio de pessoas que pareceram ser ligadas à emissora, não tenho certeza. Detalhe que o programa começou com ele, falando da sua nova experiência de modelo, sobre os inúmeros cursos que ele tem feito intensamente, com a câmara focada em seu rosto. Ou seja, é evidente que o menino é bastante tímido e nem pensava nessa possibilidade para a sua vida, mas acabou sendo convencido de seguir essa carreira em função da sua beleza, que passou a ser conhecida amplamente também em função do desaparecimento do pai. Todos estavam muito bem vestidos e maquiados, com uma aparência “clean” bem diferente de como geralmente são apresentados na mídia, em vídeos e fotos.


Não é novidade esse tipo de sensacionalismo em situações como essa, mas interessante ver como de uma total invisibilidade no tratamento do caso pela emissora, depois uma tentativa de criminalização de Amarildo e Elisabeth por um suposta ligação com o tráfico, agora é feita uma abordagem trabalhada muito no apelo emocional e pouco na responsabilidade da polícia militar e do Estado no caso do Amarildo, em um programa matinal que trata de trivialidades.

Fátima mal deixava Elisabeth falar sobre o desaparecimento e algumas vezes confundiu o período em Amarildo foi visto pela última vez, mas mesmo assim, Beth fez questão de enfatizar as dificuldades que ela e os filhos têm enfrentado e expressou sua certeza de que ele foi morto pela polícia. Disse, em uma fala impactante e emocionada, que mataram não somente a ele mas como toda a sua família. Que ela quer ter pelo menos o direito de enterrar os ossos do marido dignamente, pois ele não era um animal e sim um ser humano, e que deixou seis seres humanos para ela criar e alimentar – uma fala seguida de um intenso aplauso do público. Ela também enfatizou como tem sido difícil para as crianças se manterem na escola devido aos comentários dos colegas em geral que sempre repetem cotidianamente a mesma pergunta “Cadê Amarildo?”. Ou seja, como se já não bastasse a tragédia do desaparecimento que aconteceu há três meses sem esclarecimento, fica evidente como a falta de resolução do caso por parte do Estado têm proporcionado impactos profundos nessa família e nessas crianças. Beth disse que acredita na justiça e em quem tem cuidado do caso por parte do Ministério Público.

Ao mesmo tempo, fico pensando no que deve ser e significar para Elisabeth e para a família essa exposição, não somente para pressionar sobre as investigações do caso (como ela deixou claro inúmeras vezes) mas também como maneira de reconstruir oportunidades e encontros, como ela mesmo disse e que ficou explícito com a situação do filho e com o reencontro com seus pais e filhas. Não pretendo aqui cair no jogo do contra ou a favor, interpretar ou supor qualquer coisa, pois sei que quem não conhece a dor que todas essas pessoas estão vivendo, não é capaz compreender completamente – me refiro a dor tanto do desaparecimento por razão de todo o descaso e desrespeito, quanto do desencontro de pais e filhos ao longo da vida.

Mas o que mais me impactou em todo o programa, é que depois que aconteceu o encontro de Elisabeth com as filhas e os pais, Fátima Bernardes fez questão de enfatizar que, apesar da tristeza do desaparecimento de Amarildo, este episódio também trouxe boas surpresas para a família… quase não acreditei no que ouvi! Como telespectadora, fiquei com a nítida impressão de que a mensagem a ser transmitida era de que sempre é possível superar as dores e as dificuldades mais profundas e que a vida é muito bonita e cheia de surpresas – aquele típico otimismo despolitizado, que se foca no indivíduo e ignora questões sociais e políticas mais amplas, e que nesse caso expôs sua face dissimulada diante do sofrimento dessa família e de tantas outras que se encontram em situação semelhante.  Apenas em um pequeno momento, a apresentadora disse que também espera que o caso seja resolvido e que a família possa saber o que aconteceu com Amarildo – talvez como um acesso de bom senso.

Fiquei com a sensação de que o desaparecimento do Amarildo não era o assunto central, e sim, as alternativas de superação encontradas por Elisabeth e a família. Sem desmerecer a importância do encontro entre mãe, pais e filhas, pois certamente é imprescindível e emocionante por si só, penso que se houvesse o mínimo de respeito da emissora com aquela família, esposa e os filhos órfãos, a ênfase deveria estar voltada para a cobertura honesta das investigações, para a denúncia dessa estrutura de segurança pública que criminaliza populações de favelas, para a crítica de como a justiça no país é cega com quem é pobre, entre outras questões. Enfim, se houvesse respeito, haveria no mínimo uma abordagem que desde o início do caso enfatizasse a dignidade mais básica dessas pessoas: o direito de saber o destino desse filho, marido e pai e punir devidamente seus responsáveis, seja lá quem for. Certamente se o “caso Amarildo” não tivesse ganhado o apelo de boa parte da sociedade e das manifestações de rua, cairia no anonimato da violência cotidiana, dos abusos por parte da polícia, e estaria muito longe de ter tal “cobertura” por parte da emissora.
Ainda estou perplexa, mas acho que é um evento importante para ser analisado na conjuntura atual, por isso compartilho essa pequena impressão.
*Cientista social, doutoranda em Saúde Pública pela ENSP/FIOCRUZ.

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