“PARTICIPAÇÃO DO POVO nas tomadas de decisão está colocada nas ruas”, diz professora da FGV

Por Aneci Palheta, Mariane Matos, Maximiano Laureano e Sheila Jacob – Publicada na 9ª edição do jornal Vozes das Comunidades

Em entrevista ao jornal Vozes das Comunidades, a professora Sonia Fleury avaliou as mobilizações que tomaram as ruas em junho deste ano. Ela considera que este momento é importante para se lutar pela participação pública nos processos de tomada de decisão da cidade e nos debates do modelo de cidade que temos.  

Foto: Max Laureano

Foto: Max Laureano

“Até então, a gente via favorecimento de grandes empreiteiras, preparação para os megaeventos, tudo sendo decidido de forma fechada e distante dos principais interessados”, observa. Psicóloga com doutorado em ciência política, Fleury coordena na Fundação Getúlio Vargas (FGV) o Programa de Estudos da Esfera Pública (PEEP). Nessa entrevista ela fala ainda sobre a violência policial, que sempre existiu nas favelas e periferias, e sobre a importância das mídias alternativas na apresentação de uma cobertura diferente da imprensa tradicional.

Jornal Vozes das Comunidades: Como você avalia as Jornadas de Junho? O que estava em jogo naquele momento?

SONIA FLEURY: Acho que a essência dessas mobilizações é a questão democrática. O modelo de 1988 [quando foi aprovada a atual Constituição] era descentralizado e participativo. Naquele momento foram criados instrumentos democráticos inovadores, como as conferências, conselhos… O problema é que esses espaços foram enfraquecidos. Acredito que a participação efetiva da população nas tomadas de decisão é o que está colocado nas ruas. Até então, a gente via favorecimento de grandes empreiteiras, preparação para os megaeventos, tudo sendo decidido de forma fechada e distante dos principais interessados. O poder público chegava e falava que tal comunidade ia ser removida, que uma escola ia ter que ser demolida por causa dos megaeventos… Agora o governo está tendo que voltar atrás nessas questões, mas são medidas pontuais. Não me parece que os governantes tenham se dado conta de que, ou se reativam os mecanismos de participação, ou só tomar medidas emergenciais não vai resolver. Falar que vai manter a Aldeia Maracanã ou que não vai mais remover a Vila Autódromo é importante, mas não é sufi ciente, porque outras insatisfações aparecerão.

JVC: De qualquer maneira é um avanço…

SONIA FLEURY: Imagina para o pessoal da Vila Autódromo que lutou esse tempo todo? Claro que é um avanço, mas não devemos nos acomodar a isso. 

JVC: Um exemplo é a mobilização popular para que a CPI dos Ônibus funcione?

SONIA FLEURY: Isso. No início as manifestações eram pela redução dos 20 centavos. Mas houve um amadurecimento rápido do movimento e construiu-se uma pauta política. Hoje querem saber como são feitos os contratos, quem decide o preço, como é o processo de escolha das empresas… Ou seja, querem a instalação de uma CPI efetiva. 

JVC: O gigante acordou?

SONIA FLEURY: Acho que não, porque não havia ninguém dormindo. Antes de junho já existiam os Comitês da Copa, os diversos movimentos sociais, todo mundo trabalhava como formiguinha. Mas essa movimentação não era visível. Acho que o que acordou foi essa explosão, a descoberta coletiva de que estar nas ruas pode mudar alguma coisa. Por exemplo: no final do ano passado houve o Ocupa Borel, uma versão localizada do que ocorreu em grande escala no mês de junho.

Manifestação na Avenida Presidente Vargas, no Rio, em 20/06 || Foto: Arthur William

Manifestação na Avenida Presidente Vargas, no Rio, em 20/06 || Foto: Arthur William

JVC: Uma das principais defesas de quem estava nas ruas era contra o monopólio midiático…

SONIA FLEURY: A tentativa de manipulação do que estava nas ruas pelos grandes veículos de comunicação apareceu fortemente para a população em geral. Na TV só aparecia a violência dos manifestantes, enquanto as pessoas estavam nas ruas apanhando da polícia. Então esses protestos tiraram os véus e mostraram como a chamada “grande mídia” funciona. Um grande ganho desses movimentos foi mostrar como é prejudicial o monopólio dos meios de comunicação e a importância das mídias alternativas. A meu ver, o desafio é avançar na expansão, credibilidade e sustentabilidade desses novos meios.

JVC: Além da mídia, os manifestantes protestavam bastante contra a violência policial.

SONIA FLEURY: A classe média se tornou vítima da violência policial que sempre existiu nas favelas e que essa mesma classe autorizou e legitimou com as UPPs, por exemplo. Instituições que estavam paralisadas também passaram a se mobilizar. A própria OAB [Ordem dos Advogados do Brasil], que teve um papel muito importante na redemocratização do país, está despertando para a violência dos dias de hoje e vai investigar os “desaparecidos da democracia”. 

JVC: Por falar em violência policial, em 2013 as chacinas da Candelária e de Vigário completam 20 anos… Neste ano, vimos o caso do Amarildo ganhar uma repercussão que antes não havia. Então mudou algo de lá para cá?

SONIA FLEURY: Alguma coisa tem mudado, mas ainda assim é muito pouco. Muitos Amarildos existiram antes, mas este caso se tornou simbólico por ter acontecido nesse momento específico. Os dez que morreram na Maré, por exemplo, não tiveram a mesma repercussão. De qualquer maneira, não podemos desprezar esses símbolos importantes para a luta política. Mexer com o Maracanã, e acabar com a geral, também é simbólico porque atinge os interesses de uma sociedade em que futebol é importante. É mais uma mostra da distância da população em relação ao poder em uma cidade que virou mercadoria, que está sendo vendida e gerida como empresa.

JVC: Na sua opinião, vai haver jornadas de setembro, outubro, novembro?

SONIA FLEURY: Os protestos não pararam de acontecer, apesar de não terem mais aquela dimensão. Aqui no Rio tem a mobilização em relação à CPI dos Ônibus, as lutas contra os desmandos em nome da Copa… As insatisfações estão aí, as pessoas descobriram o poder que elas têm e eu acho que, ou se criam canais para lidar com esses conflitos, ou eles vão para o meio da rua de novo. Estar nas ruas é importante, assim como ocupar a Câmara dos Vereadores, a Assembleia Legislativa, espaços públicos por onde circula o poder e que antes eram tratados como privados. Estar mobilizado é muito importante para garantir direitos fundamentais.

Leia o jornal na íntegra!

Uma ideia sobre ““PARTICIPAÇÃO DO POVO nas tomadas de decisão está colocada nas ruas”, diz professora da FGV

  1. James

    Infelizmente não há manifestações reais como no inicio. O que muitos não sabem é que pessoas de oposição ao governo atual pagam “manifestantes” para “protestar”.. é isso mesmo gente. Esses baderneiros da cpi dos ônibus estão ligados ao PSOL por exemplo. Não acredite em tudo o que vê nas ruas. Procure saber o verdadeiro sentido de tudo isso. Estamos nos aproximando do ano de eleições, reflitam.

    Responder

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *